quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Reflexão pós Victor

Sempre julguei ser a morte um assunto que não nos pertence. Qualquer investigação sobre ela é falha, pois não pertence aos vivos. Daí a necessidade de se abraçar uma religião, que fornece explicações fabuladas para essa incógnita. Mas eu, já não busco nada. Li certa vez, não me lembro a fonte, que infinita é a vida, não a morte. E acolhi, então, tal explicação.
A vida nunca termina, pois o que há depois dela?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

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Acordei com a notícia, dada pelo porteiro do prédio de Victor: um acidente na saída da cidade, Victor, com roupas velhas, estirado no chão.
Qual o sentido disso?
Qual o sentido da morte?

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Após tanta espera, uma sensação estranha. E, tal sensação foi o que me impulsionou ao que sucedeu.
Desci as escadas tão rapidamente quanto os corrimãos, saí do prédio e, já na rua, vi um carro acelerar. Poderia ser o carro de qualquer um - pensei - nada o ligava ao mistério. Inquieta e também inerte diante dos acontecimentos, não soube agir ponderadamente. Peguei o carro, que parecia esperar-me, e segui a avenida até encontrar o carro branco, o qual vira acelarar.
''É agora, tenho que agir'' ''Não é assim que fazem nos filmes?'' '' Vamos lá, tome uma atitude''. E assim pressionava-me, em busca dos quadros dos filmes que eu perdera, em busca do que separava a perseguição do ato seguinte. Nada.
Estacionei o carro, desolada, em frente a um supermercado. Pouco depois, e mais a frente, o tal carro também parara. Dele desciam uma mulher e um homem, bem vestidos e pouco suspeitos.
Parti e voltei ao prédio.
Lá, perguntei ao porteiro por Victor. Ele não soube responder, mas me deixou à vontade para subir. Foi o que fiz, antes de voltar à minha casa aturdida e desconfiada.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

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Victor estudava muito, fazia direito. Não me surpreendi quanto me contou, achei promissor porque falava bem e passava uma imagem correta de si. No entando, sua retidão o tirou dos grandes combates.
Eu estava contente com nosso namoro. Contemplava-no e me deliciava somente por poder olhá-lo. Foi bom.
Victor era mestre em sutilezas e, certo dia, havia preparado algo para nós, um jantarzinho sem requintes mas promissor. Não jantei com ele. Ele não jantou. Quando cheguei em seu apartamento, a mesa posta, um filme sobre a mesinha da sala, sua camisa em cima da cama, muito bem passada e a água gotejando no chuveiro.
Julguei ser parte da surpresa. Ele sempre gostara de mistérios. Esperei, 10, 20, 30 minutos...
O jantar estava frio, assim como já estaria seu corpo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Encontro

Meu primeiro encontro, não pontual e desprovido de seu sentido de gala, foi aquele descrito por mim anteriormente. Um encontro de mim comigo mesma, porque não soube naquele momento se o menino gordinho pôde, sequer por um instante, fazer suposições e constituições de nós como eu fizera. Encontrei-me com uma de minhas faces, até então silenciosa. No entanto, naquela ocasião não havia clareza. Jamais podia imaginar quão inquieta se tornaria essa nova face: novos encontros vieram.
Há 7 anos conheci Victor, e sobre esse encontro receio ter muito mais a contar.
Nossos carros pararam lado a lado e eu, como de costume, divagava. Olhando pela janela do meu carro e dentro da dele, notei o que era óbvio. Sua beleza, sim, nada tão óbvio. Mas me refiro primeiramente a uma ansiedade expressa de modo delicado. Como descrevê-la?
Havia um incômodo em sua garganta, um levantar de sobrancelhas sutil, uma preocupação carinhosa facilmente identificável em seu olhar e mãos que vacilavam inquietas sobre direção, em forma de movimentos nulos. Viu que eu o observava. Olhou-me então não menos delicadamente e partiu.
Há um barzinho a duas quadras de meu aparmento, foi lá onde o revi, após alguns meses, cinco ou seis. Tornamo-nos íntimos ... Assumimos um namoro e cheguei a desejá-lo para sempre.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Seria Fuga?

Há pouco tempo estive numa entrevista de emprego. Fui obrigada a usar roupas dessas bem assentadas e de molde único, embora distintas, à todos que se incluem no universo à parte que é o empresarial. Como pude me tornar uma mulher de negócios se o modo civilizatório e compromissado com uma adequação de vestimenta e de comportamentos me repudia? Nem eu mesma sei, mas suponho que tenha sido algo próximo à exaustão que pensar e pensar, e idealizar mundos, e renegar este me trouxe. Talvez essa tenha sido a fuga mais às avessas! Alguns fogem da realidade e eu pareço fugir para ela, como numa tentativa de acomodação.
Busco um lugar?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

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Sentei-me na cama e fiquei a ouvir a conversa de nossos pais. O menino não se manifestava e isso fazia-me supor seu modo calado, ao menos à vista de outros. Estava imaginando se não me seria uma boa companhia, a suprir o vácuo que a ociosidade e os afazeres leves e descompromissados me traziam. Era gordinho e bonito.
Foi relutando bastante que, a chamado de meu pai, fui à sala. Sentei-me a seu lado e, enquanto ele se detinha no filme da tarde, detinha-me nele.
Depois lanchamos e nos despedimos, como se despedem crianças tímidas recém conhecidas.